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Os melhores Realizadores são os que respeitam os espectadores

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.02.09

 

Sempre vi a arte como comunicação: se  não pretende dizer nada a ninguém não é arte. Se não pretende mudar nada, não é arte. Se não pretendeprovocar uma qualquer reacção, não é arte. Com o cinema também é assim. É por isso que não coloco, no plano dos melhores, alguns Realizadores celebrizados. E mesmo que os críticos de cinema nos assegurem que o que produzem é arte, se o espectador não se sentir tocado, envolvido, provocado, assustado, comovido, não é arte, é outra coisa.


O bom Realizador não se sobrepõe ao filme, não se exibe, oculta-se. E ao ocultar-se, afirma-se. O que brilha é o tema, as personagens, a acção. E a razão do filme não é ele próprio, falar consigo próprio ou uma forma de se exibir, mas uma forma de comunicar. Não acredito no culto da personalidade. Mesmo em John Ford, o excêntrico e independente, o que se sobrepõe nos seus filmes é o seu enorme amor ao cinema, ao trabalho de equipa, ao grupo de amigos. É nisso que eu acredito.


E há muitos outros: um pavão como o Hitchcock que até aparecia fugazmente no meio dos filmes para ser identificado (o eterno suspense), e cultivava o voyeurismo, é sempre para o espectador que se dirige, sempre:brinca com o espectador, pisca-lhe o olho,provoca-o até ao limite, como um rapazinho maroto que gosta de pregar partidas.
E até o por vezes insuportável Orson Welles, esse génio perfeccionista até à exaustão, é o espectador que ele quer impressionar e deslumbrar com as suas magníficas proezas. O espectador que conseguiu assustar, ainda muito jovem, num programa de rádio.

O cinema é uma linguagem artística específica: uma imagem fixa, estática, não é cinema, é fotografia. Um longo monólogo ou um longo diálogo, não é cinema, é teatro.
A alma do cinema está no movimento, no seu ritmo, no seu bater do coração. Por isso lhe chamaram motion pictures, essa designação deliciosa... O movimento, a acção, decorre num determinado período de tempo, que tanto pode ser uma hora, como um dia, um mês, um ano ou atravessar séculos. Sendo diferente da fotografia, as imagens não podem permanecer fixas, congeladas eternamente, muito menos quando isso não se adequa ao sentido da acção ou à respiração das personagens.


Compreender a linguagem específica do cinema é interiorizar a importância da gestão do tempo. Sendo diferente do teatro, os diálogos têm de ser muito mais trabalhados e sintetizados com um timing e ritmo adequados à acção e ao tempo em que decorrem. Nalguns Resnais, os actores simplesmente prolongam os seus diálogos até desejarmos calá-los de alguma forma, de qualquer forma! Monólogos intermináveis ou diálogos pormenorizados podem matar um filme.


Podem questionar-me: e a liberdade criativa? Tudo bem, mas uma coisa é aproximar-se dessas outras linguagens artísticas, outra muito diferente é afastar-se completamente da sua própria linguagem. O cinema tem uma linguagem específica, com regras próprias, o domínio de uma técnica: movimentos de câmara, os diversos ângulos, aproximação e distância, a montagem, efeitos especiais, etc. Só a partir do domínio de uma técnica se pode passar para outros vôos. É por isso que há muito de engenhocas nesta linguagem específica. E muita paciência e atenção aos pormenores.


Sequeira Costa disse, num magnífico documentário recente na Rtp2, que um pianista tinha de ter, além de uma sensibilidade acústica fora do comum, uma sensibilidade para a Arquitectura. Que uma partitura era como uma construção complexa. Pois bem, o mesmo se passa com o cinema, só que a construção está em movimento, é móvel, como um grande cubo mágico, com um espaço e um tempo próprios, um ritmo, um equilíbrio. O cinema exige igualmente uma sensibilidade visual fora do comum: Hitchcock conseguia ver o filme todo antes de iniciar as filmagens.
Há uma acção que determina o sentido, mas também pode ser uma acção interior, uma tensão emocional, uma descarga eléctrica, uma atmosfera. E aqui podemos pensar em Elia Kazan.


Ora, só é possível transmitir tudo isto através de uma técnica, a sua base. Uma boa técnica ajuda o bom Realizador. Ter visto os clássicos, ter-se demorado pelos seus loucos inícios, a sua euforia e a sua glória, a sua loucura também, é fundamental para se ser bom Realizador. Não precisa de ver tudo mas precisa de ver atentamente. A pouco e pouco começará a distinguir o que para si é bom, mau e assim-assim. Começará a descobrir, com uma certa perplexidade, que há o bom em filmes de série B e com fraco orçamento, e que há o mau em filmes premiados e até oscarizados. Sim, aprenderá a treinar o seu próprio olhar crítico e a não basear-se nos olhares de especialistas. A partir daí está por sua conta. E já pode arriscar o seu próprio caminho, utilizando a sua própria ferramenta: inteligência, sensibilidade, técnica adquirida, criatividade e ousadia. A cada um a sua sensibilidade.


Spielberg dá-nos autênticas lições de cinema nos seus filmes, como uma síntese baseada na sua sensibilidade filosófica e visual, porque percebeu e integrou a sua linguagem específica, a sua técnica.
Sim, os melhores Realizadores respeitam os espectadores, respeitam o guião, as personagens, os actores. E aqui voltamos ao Clint Eastwood. Todos os actores que com ele trabalham dizem isso mesmo: há um clima acolhedor; mantém um bom ritmo nas filmagens; não exige muitos takes porque se organiza previamente muito bem e sabe o que quer; e consegue transmitir a sua ideia aos actores e aos restantes elementos da equipa.

 

 

 

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publicado às 23:04


1 comentário

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De Isolamento Acustico a 04.03.2010 às 17:57

Parabens pelo blog!

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